00:00 o relógio marcava.
Angélica teve um dia difícil mas estava sorridente naquela madrugada. Andava cuidadosamente pelas ruas da grande cidade onde morava, quem via não imaginava o que a dona daqueles grandes cachos havia passado. Estava há duas quadras de distância de casa quando resolveu comprar um pastel ali perto dos arcos. A praça estava bonita, decorada, e o cheiro dos petiscos ali vendidos seduziam a todos.
- Camarão, por favor - A morena tirou uma nota de cinco da bolsa e recebeu umas moedinhas de troco. Sentou-se em uma das mesinhas com plotagem de alguma marca de cerveja e começou a aguardar.
Na mesa ao lado havia uma menina pedindo pra ir pra casa e cochilando na saia da mãe, que estava super animada conversando com uma amiga.
Dona Rúbia do pastel levou o salgado até a mesa de Angélica e perguntou:
- Como vai sua avó? Manda um beijo - E voltou para o balcão.
Foi quando ela lembrou que não queria chegar em casa.
Foi quando ela lembrou que estava com medo.
Angélica era enfermeira e via muita coisa o tempo todo. Gente morrendo, gente escapando ou perdendo tudo. Via mesmo, se sentia totalmente incapaz de fazer nada, ficava triste, mas quando ela viu sua única família na mesma situação não aguentou.
Seu irmão estava em coma e sua avó foi passar a noite com ele, já que ela vivia de plantão... Mas chegar naquele apartamento que eles batalharam tanto pra comprar e não brigar pela louça ou conversar sobre o dia com as duas pessoas mais importantes era demais.
Foi quando apareceu aquela loira e pediu pra sentar na mesa. Angélica fez que sim e ela sentou.
- Que cara é essa, o pastel está ruim? - A moça riu
- Não, só não estou num dia bom.
- Pense que são meia-noite e pouca e você poderia ir pra casa sem me conhecer, a vida calculou isso. - Ela deu uma pausa e viu que o rosto de Angélica estava com uma expressão totalmente confusa, assustada - Calma, eu também não tive um dia bom... Preciso só descontrair, qualquer coisa eu posso sentar em outra mesa...
- Não, fica.
- Então tá. Já pensou em se casar?
- Nunca tive tempo pra isso
- Nem eu. E as pessoas se assustam tanto quando ouvem isso, sabe? Acabei de fazer 29 anos e minha família não aceita o fim do noivado.
- Você era noiva?
- Sim, fui noiva, por cinco anos. Larguei tudo e fui morar na Áustria, ganhei uma bolsa pra continuar a universidade lá.
- Espera um pouco... Você ficou quanto tempo lá?
- 3 anos. Sim, eu fiquei noiva bem cedo, namorado do colégio.
- Uau. Eu nunca tive direito a essas coisas - Disse suspirando - Eu e meu irmão mais velho ficamos órfãos muito cedo, minha avó que cuidou da gente com toda dificuldade do mundo. Nós começamos a trabalhar bem cedo pra ajudar a vó. Ela nunca gostou disso, mas nós não aguentávamos ver ela lavar roupa pra fora. Consegui uma bolsa pra cursar enfermagem e meu irmão passou num concurso. Eu trabalhava e estudava e ele trabalhava.
- Vocês devem ser bem unidos. Minha irmã e minha mãe me detestam, eu tenho inveja de você. Eu cresci com todo o luxo possível, mas minha família é totalmente tradicional. Me inscrevi pra bolsa na Áustria porque eu sei que eles nunca iriam pagar por isso, queriam a filha casada. Minha irmã teve uma filha, a coisa mais linda do mundo... Mas eu não posso nem chegar perto. Ela parece mais comigo do que com ela.
- Porque não pode chegar perto?
- Depois da Áustria eu fui banida. Hoje eu não dependo nem um pouco deles, trabalho e moro só em um flat aqui perto.
- Deve estar sendo duro pra você, sair do luxo assim...
- Eu estou melhor, sabia? Me sentia tão só mesmo cheia de gente. Vir aqui é quase uma terapia.
- E qual é teu nome?
- Também não seu o seu. Não precisa dizer.
Angélica ficou curiosa com a garota, achou que era a pessoa mais triste e só do mundo e se viu compartilhando da mesma dor, de carências parecidas. A loira pequena não podia ver a sobrinha, devia ser uma dor imensa. Viu todos se afastando porque ela não queria uma vida convencional, viu a família inteira abandoná-la. Sua pequena família a ama independente de qualquer coisa. Mesmo com o coma dele... Aí uma lágrima caiu. Queria o irmão de volta de qualquer jeito, queria sua avó tranquila, queria paz. E queria paz pra a moça que estava ali também.
Queria que ela encontrasse a mãe, a irmã, fosse próxima da sobrinha.
- Já pensou em quantas histórias tristes esse arco já ouviu? - A loira tinha os olhos brilhantes - Eu um dia vou voltar pra contar uma feliz, só pra alegrar ele.
- Eu também.
- Promete?
- Prometo.