Após o pôr-do-sol - Prólogo

Olá.
Meu nome é Annabeth, e eu queria compartilhar uma história com vocês.
Foi tudo muito rápido, as memórias são rápidas, então me perdoem a rispidez dos acontecimentos.

Eu estava no interior aquele final de semana. Eu, minhas irmãs e meu namorado fomos visitar um tio.
Meu tio tem uma filha da minha idade, Raisa.
Minhas irmãs mais velhas do que eu, são gêmeas. Uma delas, grávida.
Meu namorado estuda medicina e faz parte da Liga acadêmica de psiquiatria.
Tudo começou na tarde de sexta, quando chegamos.
Ren ofereceu balinhas de laranja - que sempre estavam na carteira - e arrumamos tudo. Era um lugar bastante pacato, não acontecia nada naquela cidade. Meu tio estava passando por uma crise de meia idade, ele enviuvou quando Raisa nasceu e nunca se mudou, sempre levou a mesma vida, nunca casou de novo e educou a filha com bastante liberdade.
Ele nos recebeu muito bem, continua me chamando de Anninha e minhas irmãs de B1 e B2 - Elas se vestiam de Bananas de pijamas quando pequenas, por serem gêmeas. Apesar da vida totalmente sozinha que ele leva com Rai, ele parece bem humorado.
Depois de um tempo, ele falou que inauguraram um pier ali perto. Pediu pra minha prima mostrar.
Não tínhamos nada pra fazer, fomos vez o pôr-do-sol.
Ninguém lembra de nada do que aconteceu após o pôr-do-sol.
Nada.
Lembro de acordar em pânico, chorando e suando frio, sem saber de nada. Eu não sabia porque estava daquele jeito.
Bernadette estava ao meu lado, na areia. Ren, Raisa e Bianca haviam sumido.
Acordei minha irmã aos gritos e nós duas corremos para a casa.
Eram sete e meia da manhã, meu tio estava gritando dentro na sala quando batemos a porta.
Raisa estava louca.
Raisa estava rasgada.
Raisa repetia coisas sem sentido e ria o tempo todo.
Meu tio não parava de gritar de raiva e apontou pra mim:
- A CULPA É SUA
Gelei. Não entendi nada e se eu já estava chorando, chorei mais ainda. Como assim a culpa era minha? Foi quando ele continuou
- Você enfiou aquele psicopata aqui dentro.
Não, ele não está falando do Ren. Foi quando a briga começou.
- NUNCA! O Ren nunca ia fazer isso, ele nem deve saber fazer algo assim, ela ta doente, precisa de um médico! Eu não sei o que acontec...
- SABE SIM, MENTIROSA - Ele me cortou e puxou pelo braço - Agora me diga onde ele está
- Não sei! Não lembro de nada! Pergunta pra a Bê
Bernadette estava perplexa olhando para Raisa, e começou a chorar também.
Foi quando Bianca apareceu pela porta arrastando o Ren.
Me soltei do meu Tio e fui ver o que se passava. Ren estava desacordado com uma marca vermelha no rosto, parecia uma mão. Olhei feio pro meu tio e arrastei Ren pro quarto.
Foi quando eu ouvi a Raise gritar:
- Laranja, ele tinha laranja.
Tranquei o quarto e desabei.
Não toquei no assunto.
Fui embora com o Ren, quando ele acordou.
Não quis mais saber.
Não sei o que pensar quando olho pro Ren. Não sei o que aconteceu com ele lá, ele também não se lembra de nada.
Vou ter que voltar
Eu preciso saber do que aconteceu
Se vocês quiserem me acompanhar para saber o que houve após o pôr-do-sol se preparem para levar bagagem.
Nós vamos levar muitos dias.

O Teorema de Alice



O dia amanheceu escuro, sem brilho.
Não havia ninguém no chalé, nenhuma alma... Mas... Quem ligava? Estava assim há algum tempo.
As xícaras estavam ali sobre a mesa, empoeiradas, aguardando por um chá que nunca ficou pronto.
Uma massa de biscoito coberta por papel plástico, um bule ao lado de algumas ervas.
Flores do campo secas no chão. Um buquê. Provavelmente colhido do jardim.
As pétalas estavam espalhadas por toda a sala.
A toalha parecia dançar junto com as cortinas e as flores. A janela rangia e o vento entrava como se fosse o único hospedeiro daquele espaço.
E era.
Ele remexia o par de sapatos amarelos que foram um dia estrategicamente colocados ao lado da porta, balançava as meias que ficavam logo ao lado. Ele levava tudo o que aquele lugar teve um dia: movimento.
 A cama, feita pela última vez, acompanhava uma mala que nunca chegou a ser totalmente preenchida.
O local era a cena perfeita para um filme, o banheiro ainda tinha poças de água do último banho lá tomado.
Foi quando a brisa derrubou um porta-retrato.
Um casal abraçado, pareciam felizes. Agora a fotografia (presa ao porta-retrato) possuía uma rachadura causada pela queda. 
O sentimento deixado por aquela casa era de perda, como se seus residentes houvessem largado tudo pela metade, tudo descosturado. Como se apenas tivessem se descoberto perdendo tudo, gerando um grande vazio. E difícil de recomeçar.
Era a meia que nunca iria ser calçada de novo, as roupas que foram ali largadas, as xícaras que anseiam o chá que nunca vai chegar, o chá que nunca será terminado, o biscoito que nunca será servido.
Uma rota de fuga.
Foi quando um papel voou.
Voou e caiu misteriosamente sobre a foto.

E nele dizia
"Estou aqui.
Alice"

Cantinhos

Ela tinha um cantinho bem escondido, como se estivesse em outra terra.
Era um bem daqueles bem bagunçados, mas feito com amor. Lá estavam suas maiores, melhores e piores lembranças já conhecidas, revividas, saboreadas, amassadas.
Uma gaveta cheia de vontades com as viagens que quer fazer e as pessoas que quer conhecer, os animais, as águas. Começava com um botão de rosa bem liso, inquebrável e com cheiro de infância que provocavam saudade de cheiro de bolo quente e doce de banana, dos joelhos ralados, das brincadeiras de pique-esconde, pega ladrão, de se esconder na garagem por horas e ninguém achar, de sumir sem querer e causar preocupação. De fazer os primos pequenos chorarem de quando não te achavam. De ficar com ciúmes do novo “bebê da família” que não era mais ela, das aulas de pintura e música, de ganhar chocolate até se entupir e não ligar pra isso, encher a cara de comidinhas gostosas, refrigerantes. Era um único botão de rosa, que ficava ao lado da caixinha de costura nunca usada.
Caixinha essa que lembrava das horas olhando álbuns engraçados de família, e ficava imaginando quando iria construir suas próprias histórias, como iria costura-las. Como uma colcha de retalhos, cada foto representava um local, uma lembrança, um cheiro e as vezes uma lágrima. Era viver tudo aquilo que não foi vivido. O tio que tinha cabelo demais e hoje não tanto, os bigodes, as roupas cafonas que eram moda, os cabelos naturais, geralmente cacheados... Até que chegam suas fotos, com os cabelos escorridos e olhos que pareciam maiores que o rosto quando criança. Fotos com birra, com balde na cabeça, tomando banho gelado, comendo, no primeiro dia de escola, fotos de quando tinha mania de levar a câmera pra escola e fotografar tudo e todos. Lembranças que estão ali, imortalizadas. Cada uma com um gosto diferente, dos mais doces até os azedos e amargos.
Até que surge um diário ali, bem escondido, e não atualizado, com nomes diversos, anagramas e besteiras dos 14 anos que a paciência não deixou levar.
Um diário da primeira viagem internacional, que tinha tickets de visitas a museus, zoológicos e mais. Lugares são totalmente preciosos, basta estar ali uma vez que para sempre vai levar os acontecimentos. Não só de viagens mas como de pessoas. Memórias de corredores do colégio, das escadas e quedas, dos amigos, dos intervalos, professores... Dos restaurantes que frequentou e do que acontecia, das praias, dos shoppings, dos filmes. De tudo que foi especial para aquelas memórias estarem ali, e de como seria bom viver tudo de novo. Dos finais de semanas que marcaram, da primeira viagem com os amigos, com o primeiro namorado, com a família. Está tudo ali.
Entre alguns sorrisos ou lágrimas, mas continua tudo ali, do mesmo jeito.
Era um cantinho comum, mas especial, e poderia ser de qualquer um. Cada um tem milhares de coisas novas para contribuir com muitos cantinhos e ser único por lá, ou compartilhar momentos únicos.
Cada cantinho vivido é único. É bonito.
Eu também tenho meu cantinho, assim como você. E se você não tiver achado seu cantinho ainda e disser que não tem um, é bobagem.
Como eu disse, todos tem. E acrescentam ao cantinho dos outros. E são perfeitos, porque são únicos e teus.
Um viva aos cantinhos mais lindos da vida.

Sobre Mudanças

Há alguns dias eu disse que pretendia mudar algumas coisinhas por aqui. As duas primeiras foram o nome e o layout (que vai mudar de novo em breve, eu espero).

Sobre o nome: Eu gosto de monólogos e é o que eu mais faço. Gosto de personagens únicos contando uma história e interpretando outros diálogos, consigo imaginar perfeitamente cada imitação (principalmente da Renata). Os olhos entram no meio por uma questão pessoal e ela se chama: Eu amo meus olhos. Sério, amo mesmo e vocês só me deixam mais egocêntrica me contando o quanto eles são expressivos e bonitos e que mesmo bem pequenos parecem enormes.
E outra: Pretendo não mais postar apenas contos - eu já havia feito isso antes, mas pedi desculpas por me desviar do assunto - e sim outros tipos de texto. Vou monologar muito, mas os diálogos nos comentários são sempre bem-vindos! Críticas construtivas e elogios também, já que não sou profissional e preciso melhorar e ao mesmo tempo preciso de incentivos.

Beijos e acompanhem do mesmo jeito que acompanhavam o Contos Plus Cappuccino (ou mais!).

Os Arcos da Cidade (Parte 1)

00:00 o relógio marcava.

Angélica teve um dia difícil mas estava sorridente naquela madrugada. Andava cuidadosamente pelas ruas da grande cidade onde morava, quem via não imaginava o que a dona daqueles grandes cachos havia passado. Estava há duas quadras de distância de casa quando resolveu comprar um pastel ali perto dos arcos. A praça estava bonita, decorada, e o cheiro dos petiscos ali vendidos seduziam a todos.
- Camarão, por favor - A morena tirou uma nota de cinco da bolsa e recebeu umas moedinhas de troco. Sentou-se em uma das mesinhas com plotagem de alguma marca de cerveja e começou a aguardar.
Na mesa ao lado havia uma menina pedindo pra ir pra casa e cochilando na saia da mãe, que estava super animada conversando com uma amiga.
Dona Rúbia do pastel levou o salgado até a mesa de Angélica e perguntou:
- Como vai sua avó? Manda um beijo - E voltou para o balcão.
Foi quando ela lembrou que não queria chegar em casa.
Foi quando ela lembrou que estava com medo.
Angélica era enfermeira e via muita coisa o tempo todo. Gente morrendo, gente escapando ou perdendo tudo. Via mesmo, se sentia totalmente incapaz de fazer nada, ficava triste, mas quando ela viu sua única família na mesma situação não aguentou.
Seu irmão estava em coma e sua avó foi passar a noite com ele, já que ela vivia de plantão... Mas chegar naquele apartamento que eles batalharam tanto pra comprar e não brigar pela louça ou conversar sobre o dia com as duas pessoas mais importantes era demais.
Foi quando apareceu aquela loira e pediu pra sentar na mesa. Angélica fez que sim e ela sentou.
- Que cara é essa, o pastel está ruim? - A moça riu
- Não, só não estou num dia bom.
- Pense que são meia-noite e pouca e você poderia ir pra casa sem me conhecer, a vida calculou isso. - Ela deu uma pausa e viu que o rosto de Angélica estava com uma expressão totalmente confusa, assustada - Calma, eu também não tive um dia bom... Preciso só descontrair, qualquer coisa eu posso sentar em outra mesa...
- Não, fica.
- Então tá. Já pensou em se casar?
- Nunca tive tempo pra isso
- Nem eu. E as pessoas se assustam tanto quando ouvem isso, sabe? Acabei de fazer 29 anos e minha família não aceita o fim do noivado.
- Você era noiva?
- Sim, fui noiva, por cinco anos. Larguei tudo e fui morar na Áustria, ganhei uma bolsa pra continuar a universidade lá.
- Espera um pouco... Você ficou quanto tempo lá?
- 3 anos. Sim, eu fiquei noiva bem cedo, namorado do colégio.
- Uau. Eu nunca tive direito a essas coisas - Disse suspirando - Eu e meu irmão mais velho ficamos órfãos muito cedo, minha avó que cuidou da gente com toda dificuldade do mundo. Nós começamos a trabalhar bem cedo pra ajudar a vó. Ela nunca gostou disso, mas nós não aguentávamos ver ela lavar roupa pra fora. Consegui uma bolsa pra cursar enfermagem e meu irmão passou num concurso. Eu trabalhava e estudava e ele trabalhava.
- Vocês devem ser bem unidos. Minha irmã e minha mãe me detestam, eu tenho inveja de você. Eu cresci com todo o luxo possível, mas minha família é totalmente tradicional. Me inscrevi pra bolsa na Áustria porque eu sei que eles nunca iriam pagar por isso, queriam a filha casada. Minha irmã teve uma filha, a coisa mais linda do mundo... Mas eu não posso nem chegar perto. Ela parece mais comigo do que com ela.
- Porque não pode chegar perto?
- Depois da Áustria eu fui banida. Hoje eu não dependo nem um pouco deles, trabalho e moro só em um flat aqui perto.
- Deve estar sendo duro pra você, sair do luxo assim...
- Eu estou melhor, sabia? Me sentia tão só mesmo cheia de gente. Vir aqui é quase uma terapia.
- E qual é teu nome?
- Também não seu o seu. Não precisa dizer.
Angélica ficou curiosa com a garota, achou que era a pessoa mais triste e só do mundo e se viu compartilhando da mesma dor, de carências parecidas. A loira pequena não podia ver a sobrinha, devia ser uma dor imensa. Viu todos se afastando porque ela não queria uma vida convencional, viu a família inteira abandoná-la. Sua pequena família a ama independente de qualquer coisa. Mesmo com o coma dele... Aí uma lágrima caiu. Queria o irmão de volta de qualquer jeito, queria sua avó tranquila, queria paz. E queria paz pra a moça que estava ali também.
Queria que ela encontrasse a mãe, a irmã, fosse próxima da sobrinha.
- Já pensou em quantas histórias tristes esse arco já ouviu? - A loira tinha os olhos brilhantes - Eu um dia vou voltar pra contar uma feliz, só pra alegrar ele.
- Eu também.
- Promete?
- Prometo.

Renata hope it gives you Hell (Parte 4)


And truth be told, I miss you.
And truth be told, I'm lying.


Totalmente mentindo.
Renata, 23 anos, cabelo desbotado, irmã mais velha, solteira.


Vocês devem lembrar da história do parque... Bem, posso parecer meio bruta as vezes (sim, as vezes, não sou essa pessoa totalmente insensível que vocês conhecem).

Vou contar a do parque. Eu estava começando a sair com um garoto meio estranho, mas como em matéria de estranheza eu sou rainha, não achei um problema. Enfim, eu sou uma pessoa que gosta de natureza, campo, flores e etc. Até aí tudo ótimo, chamei o elemento Y para passar a tarde em um parque desses, com patinhos, pedalinhos, verde, sol. Bem eu, bem lindo. Levei sanduíches, suquinho e blá blá blá. Já começou errado quando fui buscá-lo em casa, ele veio de casaco e jeans. Quem com mais de quinze anos em sã consciência sai no sol de casaco? Falo assim porque eu com meus quatorze aninhos andava de camisa manga longa preta no sol de dezembro em Salvador, era mais branca que um palmito e ainda usava capuz. Depois tomei vergonha na cara e vi que não era legal passar calor e mentir dizendo que "eu sou especial, não fico suada, hehehe"
Enfim, elemento Y estava quase no inverno europeu. Se viesse de capuz eu nem esperava entrar no carro e já tinha pensado "É bom que sobra mais sanduíche pra mim". Eu estava de shortinho e blusinha floral, tem mais verão que isso? Estávamos totalmente descombinados, e sim, eu reparo nessas coisas.
Fiz a piada do You Shall Not Pass quando chegamos no parque e tinha um policial super engraçado barrando uma tia que tinha levado uma faca afiada pro piquenique; Ele não entendeu; Ok.
Aí passou um gordinho IGUAL ao Snorlax. E tava de verde musgo. Eu segurei, mas tava vermelha de prender a respiração e soltei o ar numa risada totalmente escandalosa e mortal. Sério, como vocês sabem eu não consigo segurar riso. Ele simplesmente me achou a pessoa mais mal educada e escrota do universo. Nunca me disse isso, mas aquele olhar de raiva e vergonha que o "ser" me deu foi decisivo.

Mas ainda havia esperança!

Conversa vai e vem, fomos lanchar ele fez umas piadas legais sobre geleia, mas eu não lembro como eram... Não deviam ser tão legais assim. Falou que curtia Friends e etc... Ganhou uns pontos. 
Aí ele me fez a pergunta mais linda do mundo:
- Olha pro parque e me diz o que vê?
Respirei bem fundo, fechei os olhos e senti o vento. Essas coisas são perfeitas pra mim, que gosto de imaginar histórias, contar histórias viver o que não vivi, sentir o que as histórias que eu conto sentem. E respondi:
- Um parque tem muita história! Eu vejo casais de todas as épocas, crianças dos anos 80, jardineiros de diversas décadas. Vejo aquela árvore sendo plantada, o pintor xingando o mundo quando caiu a chuva e borrou a certa. Também vejo fotógrafos, músicos, atores... Crianças brincando de mímica e idosos trazendo seus netos pra contar histórias de quando vinham nesse mesmo parque - ou em outro parque de sua infância. Vejo alegria. E você, vê o que?
- Eu ia comentar da gritaria dessas crianças.
FIM DE ENCONTRO.
Depois disso eu me calei e só respondia sim e não, até a hora de ir pra casa. Depois disso virou apenas um contato no meu whatsapp.
E ainda soube por amigos em comum que eu era uma Hippie Nerd Estranha. De Hippie e de Nerd eu não tenho é nada, expliquem pra ele!
Sou exigente demais ou to certa?

Confissões de um 25 de março cansado

Eu só queria companhia pra comer sushi.


Não só pra comer sushi, mas pra poder conversar de madrugada no telefone, no skype, na rua em qualquer lugar.
Sou o tipo de pessoa que sempre fez tudo sozinha, sempre esteve sozinha, sempre se isolou... Mas ninguém nunca me perguntou se eu gostava de ficar só.
Eu sempre ligava pra as pessoas quando não aguentava mais, sempre... Mas... Quem me ligava?
Quem queria saber se eu tava bem?
E eu não estava nem aí se ligavam ou não, na verdade eu não percebia que eu era tão dependente da companhia alheia que qualquer coisinha errada era culpa minha, e eu aceitava.
As brincadeiras idiotas eu aceitava. E demorei pra perceber.
E quando eu não aceitava, a idiota era eu, que nunca revidava ou fazia parecido.
Quem ganhava apelidos com o sobrenome era eu.
Quem era chamada de machinho porque pegou um brigadeiro junto com os meninos era eu.
Quem era a oferecida por ter um melhor amigo homem era eu.
E caladinha eu estava.

Depois de passar por tudo isso eu criei aversão as pessoas. Criei sim, não gosto nem confio em ninguém. Não ligo mais, não procuro. E como eu parei de fazer amigos por conta disso, me apego demais as pessoas mais próximas, crio um cordão umbilical com elas.
Eu percebi que não consigo fazer as coisas sozinha sem ficar triste. Não consigo ir comer sushi sozinha, não consigo usar minha Nikon nova quando estou sozinha, não consigo assistir Forrest Gump sozinha. É difícil pra mim passar o dia inteiro só desde que eu me conheço por gente... É difícil não ter um irmão ou irmã pra conversar, um primo da minha idade, um amigo que more perto ou que não faça cerimônia em dirigir até aqui ou marcar de ir na dinha comigo (sem pessoas estranhas que eu não conheço/confio).
É duro pra mim.
Já me inscrevi em várias coisas pra tentar ocupar o tempo, mas de que adianta se no final do dia ninguém nunca vai me ligar pra saber se eu posso sair mais tarde ou pra ver se eu to bem, ou ir me dar um abraço... Porque eu amo abraços.
E pra mim, isso importa.