Tempo ao Vento e Lento

(Então... Comecei a escrever esse em maio ou abril, e hoje resolvi olhar meus rascunhos. Continuei, melhorei, consertei e segura na mão de Deus e vai.)

Estava ouvindo Slow Dancing In a Burning Room.
Os olhos cansados passeavam pela linda manhã exibida em uma janela de hotel, e eles não estavam preparados para aquela cidade, por mais bonita que parecesse. Uma coroa de flores estava pendurada na terceira árvore da esquerda, junto com um desejo: Cor. Sim, cor. A cor que o céu estaria pela noite. Não cinza, como todas as noites anteriores, mas sim, preto. Ausência total de luz, o que seria uma mentira apenas pelo fato de que esperava-se uma noite explodida de constelações. Ensaiou uns passos de dança, enquanto cantava um pouco da letra.
Bateram a porta.
Um bilhete em um envelope que cheirava baunilha. Uma foto de família, com duas crianças e dois adultos, e pareciam felizes como em um comercial de margarina. Será que estavam mesmo?

Pensou no dia em que nasceu, naquela história repetitiva do céu totalmente carregado, de um engarrafamento e do pai chorando enquanto segurava uma filmadora na sala de parto. Será que conseguiria um dia, dar a alguém tudo o que não teve? Suprir necessidades que não competem apenas a aquela pessoa? Um final considerado feliz? As lágrimas escorriam. Responsabilidades eram comuns, mas... Ser responsável por outra pessoa?
E se eu magoar? E se doer muito?

E riu.

Há alguns anos, não ria, e sim chorava. Entregou sua felicidade, feriram. Não seria capaz de fazer o mesmo, ou simplesmente ignorar que aconteceu, as olheiras ficaram por um bom tempo... Sumiram.
Calçou os chinelos e foi até o jardim, pegou a coroa e vestiu. As lágrimas ainda escorriam, e começou a se vestir entre peças claras e algo azul. Fez questão de abrir por si só o estojo de maquiagem, e fazer o que quisesse.
Pés de galinha que ainda não existiam eram fantasiados, e cor as bochechas ganhavam.
Pálida como a lua, não ganhava cor, apenas contraste com os cabelos pintados, que também estavam dois palmos mais curtos.

Não queria ver ninguém, estava nervosa. O sorriso se transformou em uma lágrima gorda e pensou "Dá tempo de fugir".
Mas... E se fugir?
E veio uma voz conhecida dizendo que fugir era atrasar a felicidade, retardar responsabilidades.
Mas e se não quisesse ser responsável?
Não existe não querer, tem que ser.

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