Cris? Sim, me chamam de Cris. Léo sabia que o meu nome era Clair, já havia descrito como a minha mãe era louca por Debussy. Clair Lune foi o resultado dessa paixão.
Ele apenas me apresentava como Cris, e eu, que não me importo, não corrijo. Na verdade, eu não falo... Poucas são as pessoas que já ouviram a minha voz. Entre elas: meus pais, Ana, Léo, alguns professores e a classe de literatura, porque o professor me fez ler um soneto.
Léo nasceu comigo, praticamente é meu irmão, nossas mães se conheceram na maternidade, e parece que foram amigas até eu ficar órfã. Não gosto dessa história, quero pular.
Diziam que eu tinha alguma doença, porque minha primeira palavra foi aos quatro anos, mas sempre me senti completamente normal. Segundo Léo, eu estava nervosa com alguma coisa e disse 'Não'.
Nunca liguei para palavras, e não me importo muito com o que dizem, eu sei o que elas sentem. Apenas sei.
Ana é minha irmã mais nova, ela não gosta muito de quando vou buscá-la na escola. Ouço coisas do tipo 'você é estranha' o tempo inteiro, e Ana se arrepende de dizer. Sinto pela voz e expressão que ela faz assim que diz.
Naquela noite, eu despistei Léo e os amigos inexpressivos dele, e desapareci na orla.
Eu, a areia e a maresia. Tirei o salto e caminhei até a água, que parecia estar tão fria quanto aquela noite de agosto há dois anos. E podia jurar que ela estava apenas chegando e não era apenas uma lembrança.
Os grãos de areia eram fofos e acalmavam minha pele em contato com a água, o que me fazia pressionar os dedos contra eles. Era como pisar em nuvens, se algum dia fosse possível.
E eu sei que será.
Mas não agora, e não hoje. Não quero pensar no que pode ser, no que será, quero saber do que está acontecendo agora, do que é, do que eu sou.
No momento, eu sou uma pessoa no mínimo desequilibrada por estar sozinha em uma praia às duas da manhã, mas... Quem liga?
Apenas me veio uma canção antiga, que embalava as noites da minha infância.
'Olá' Alguém falou e congelei. Não estava sozinha, e haviam escutado. Quantos eram? Não tive coragem de me virar, mas não foi preciso, logo ouvi o barulho na água, ele estava vindo. Noah, seu nome era Noah. Me pediu para continuar a canção, e fiz que não com a cabeça.
- Tudo bem - Noah riu - Venho aqui sempre, e você está roubando minha praia
Senti o tom de deboche, preferi não encarar, mas saiu um suspiro indiferente
- Olha, eu não estou bem, me desculpe qualquer coisa. O negócio da praia foi pra descontrair, mas se quiser, eu posso ir...
Ele se virou, mas puxei pelo braço.
Não queria que o garoto fosse embora por minha falta de educação, e ele ficou.
Pediu licença e pegou meu par de sapatos para colocar em cima de uma pedra, que ele acabou sentando, e ali ouvi toda sua história de vida, sem dar um pio, já que ele havia ouvido sua voz sem permissão.
- Me desculpe, qual seu nome?
Estava escuro, não dava pra desenhar na areia, tive que pensar rápido.
Apontei.
- Lua?
Fiz que não
- Luna?
Balancei a mão como quem diz 'mais ou menos'.
- Lune?
Não deixa de ser, então sorri e fiz que sim.
Ele começou a falar mais e fazer piadas de como eu era calada, mas que isso era bom. Quem ouve mais, geralmente consegue sair melhor dos problemas, o que não era o caso dele, e que na verdade, quem pouco fala, quase não tem problemas.
Pra falar a verdade, meu único problema são algumas pessoas que acham que eu tenho algum problema mental, e não respeitam meu direito de ficar calada.
Ele respeitou, e não insistiu... Apenas se guiava pelas minhas expressões corporais, e parecia entender bastante do assunto, não imagino como.
Apenas sei que antes do nascer do sol, não sei como, e contra a tudo o que eu acreditava, eu cantei.
E ele ouviu.
E o Sol nasceu.
Antes de ir, escrevi meu número na areia, seguido de uma mensagem:
Respondo sms
Apenas sei que peguei meu celular ao entrar no carro e haviam dezenas de chamadas do Léo. Enviei um sms dizendo apenas que estava bem.
E... Esperei outro sms chegar.
Chegou.

