Escrito e Publicado em 17 de Setembro de 2011 - Repostado
Passaram alguns anos e seu cabelo já não era mais loiro, e sim, preto. Reconheci o jeito com que falava ao telefone e não gostava do que ouvia. Não acreditava no que estava acontecendo. Minha melhor amiga da adolescência estava sentada a minha frente em uma sala de espera. Levantei-me, e sentei ao seu lado, meio sem saber o que dizer, o que conversar, já que perdemos o contato desde que ela foi cursar faculdade em outro estado.
- Felícia? – Esperei desligar o telefone.
Virou o rosto com uma expressão de duvida, como se reconhecesse a fisionomia, mas não recordasse de onde. Até que seus olhos começaram a sorrir explicitamente e ela me abraçou forte. Não largou.
- Eu não acredito! – ela tinha a mesma voz. Grossa com leves afinações, causadas por excitações momentâneas. – É você mesmo, Eduardo?
- Sim – Sorri para ela. Meu celular começou a tocar, para minha total vergonha. Era a nossa musica preferida na época do colégio. Sempre foi meu toque, podia trocar de celular quantas vezes quisesse mas o toque nunca mudou. Não atendi, estava ocupado demais.
- Essa musica… Você ainda se lembra?
- Sempre me acompanhou
- Que ótimo… Se eu te confessar que também é o meu toque de celular?
- Sério? Então somos dois. Como vai a vida?
- Bem. Me formei em direito, casei, divorciei e casei de novo.
- Casou? Com quem?
- Primeiro foi com o meu namorado da 8ª serie, lembra? O Danilo. A gente fez faculdade no mesmo lugar, e resolvemos casar depois da formatura. Um desastre! Durou um ano e três meses, o suficiente pra nascer a Sophie.
- Mas você não disse que não queria ter filhos?
- Isso foi antes de casar. A Sophie mora com o Danilo em BH. Não perdi o contato com eles, sempre que posso vou visitá-la. Vai fazer quatro anos esse mês. – Abriu a bolsa e pegou uma foto de uma garotinha morena e de olhos verdes, com o rosto coberto de sardas
– Ela é muito linda. Aqui ela tinha acabado de voltar da escolinha. Enfim, filhos só dão trabalho quando nascem… Digamos que eu ainda não gosto da parte das fraudas, e também da parte do gofo.
- Realmente não é a sua cara. E seu atual marido?
- Renan. Conheci quando me mudei para São Paulo. Estamos casados a dois anos. Eu voltei aqui para a terrinha e ele não veio comigo. Vim ver minha família no natal. Ele quis passar o natal lá em São Paulo, com a dele. Somos muito liberais quanto a isso. Queria que a Sophie viesse passar o natal, mas parece que ela só vai passar comigo o ano novo. E você?
- Sou Engenheiro, formei no Rio. Pensei em ir atrás de você em BH, mas não passei na federal de lá. Te mandei milhões de e-mails, mensagens, tentei mandar cartas, mas sua mãe não me passou seu endereço. Tentei te achar no Facebook e não consegui, você não entrava mais no msn. Parecia que estava fugindo de mim.
Felícia nada disse. Ficou boquiaberta. Não sei se disse o que era para ser dito, mas disse que senti falta dela. Desisti de procurá-la após alguns anos. Não via Felícia faziam 12 anos. Desde a formatura do colégio. Nenhum telefonema, nada.
- E a Chiara? Lembro que namorava com ela
- Terminou comigo e fugiu com o Frederico.
- Sério? O Frederico? Acho que soube de algo assim pela Tamara, mas não sabia que foi a Chiara. Você se casou?
- Sim, mas fiquei viúvo.
- Meus pêsames.
- Foi com a Graciella. Acidente de carro. Ela morreu na hora, eu tive ferimentos leves. Fazem três anos.
- Teve algum filho?
- Ela estava grávida. – Senti meu estômago revirar ao revelar essa parte da minha vida. Como se a Graci estivesse me induzindo a contar com ela.
- Felícia Matarazzo – A recepcionista chamou- Veio ao médico aqui?
- Sim. Só rotina mesmo, aproveitei. – Ela puxou um cartão da bolsa e me entregou – Apenas para não ter desculpas, e me ligar quando puder. Quando posso te ver?
- Quando quiser – Peguei o cartão – Te ligo sim. E vamos fazer brigadeiro.
- Sério? Você aprendeu a fazer? Queimava tudo, quase incendiou minha casa.
- Qualquer coisa a gente compartilha um chocolate em barra, você tem tempo?
-Quem não tem tempo para chocolate? – Sorriu dando um beijo em minha bochecha.
E ela entrou no consultório.
You (I) can’t make it feel right
Escrito em 29 de novembro de 2011 - Repostado
Looking at you makes it harder
But I know that you’ll find another
But I know that you’ll find another
Sexta-feira, 18 de novembro.
Eu não podia conter minha excitação. Dois anos, vinte e quatro meses, 731 dias (ano bissexto), 17544 horas. Me aproximei de Roxanne e ela não elogiou meu cabelo platinado, como sempre fez. Na verdade, ela não me enxergou. Eu consegui voltar daquele lugar, e não ganhei um oi, um olhar, um nada. Como assim ela não me notou? Vesti o vestido que ela adora e trouxe as flores.
Me virei para apanhar o buquê que estava em cima da mesa.
Que porra é essa? Onde estão as rosas? Cadê Roxanne? Meu vestido?
Só enxergava a sala branca. A maldita sala branca que me aprisiona há 2 anos, com meus arranhões na parede. Minha blusa amarela suja de groselha e aquela mesa, com dois lugares e um esperando por ele.
Ele. Aquele de quem tive nojo durante todo esse tempo, que me tocava de modo sujo, aquele que me tirou todo o bom sentimento do coração, aquele que me ensinou a ser má e fria. E a tirar vida de pessoas.
Essa era a lei. Para sobreviver, trabalhava como assassina. E o que eu mais queria era ser a assassina dele.
Meu cabelo que antes era de um loiro platinado perfeito e vivo, agora parecia um branco cinzento. O anagrama tatuado na esquerda da minha cintura estava esticado pelo osso. Antes havia carne ali. Minhas unhas estavam amarelas e grandes. Eu não era mais Renata. Eu era a matadora. Que ironia. Matar para não morrer. Cogitei suicídio. Cogitaram levar minha família.
Porque Rox estava lá? Porque ela sumiu? Como eu consegui sair?
O que é isso na minha blusa? Ferrugem? Cheirava como tal, mas era molhado. E esse espelho surgiu de onde? Não me lembro de ter deitado.
Meus dedos. Merda, meus dedos. Não consigo mexer. Meus olhos não estão assim, esbugalhados. eles não são assim. E quem é essa chorando? Rox? Ela voltou? Meu vestido agora está lá. Quem são essas pessoas? Eu não sei de absolutamente nada, quero chorar. Merda. O que ele me ensinou sobre chorar?
Só chora quem é idiota e fraco. Você quer ser uma fraca?
Não me lembro mais do rosto da minha mãe, do meu pai e do meu irmão. Só lembro da Rox. Mas… ela era loira ou ruiva? E o que é aquela flor no meu cabelo?
Eu não lembro o que é felicidade, eu não lembro o que é vida.
Eu só me lembro de como as pessoas são ruins. Do sangue, das vidas que eu tirei, e do rosto da primeira pessoa que eu matei.
Eu.
Ali e Aqui
Existem aquelas noites onde qualquer coisa vira motivo pra sumir.
As dele, eram as sextas-feiras.
As dele, eram as sextas-feiras.
Toda manhãzinha de sexta ele acordava pensando 'O que pode dar errado? Hoje nada vai acontecer'. Terrível engano. Sempre acabava enervado em um beco qualquer, segurando uma garrafa de Whisky pela metade, vestindo sua roupa social, e o terno jogado pelo ombro.
Não carregava o celular com ele. Ao voltar para casa, sempre havia no mínimo três ligações perdidas.
Mãe, namorada e irmã.
Mas naquele sábado a tarde, ele não retornou as ligações.
Nunca mais voltou para casa.
Estava morto.
'Morto? A história é sobre um morto?' Sim. Ainda há tempo de fechar a janela.
Aqui jaz ele.
Enterrado envolto em seu terno de linho de estimação, com um Lp dos Beatles em suas mãos, e uma das alianças que havia comprado na pretensão de pedir a namorada em casamento. A outra estava nas mãos da morena que não parava de soluçar.
Não havia uma pessoa feliz com aquela perda, o rapaz morto era querido e boa gente. Ao longo dos anos, existiam pessoas que tentaram não gostar dele, mas as próprias admitiam: É impossível.
Uma senhora envolta em cores fúnebres se aproximou do microfone segurando uma folha de papel pautado. Como de se esperado, começou a ler. Era uma carta escrita pela irmã, que não teve coragem de velar o irmão.
A carta falava da infância, dos namorados que ele espantou e dos ex-namorados de que ele a defendeu. Dos resmungos que ele a fazia ouvir, do sorriso sincero que ele carregava e de tudo o que eles passaram. Sobre a bebida, sobre as brigas no trabalho, os sumiços que davam preocupação e que acabou em morte. Sobre ele dizer a menos de uma semana que ia ficar noivo, sobre os sete anos de namoro com a garota chata do ensino médio e como ela detestava o jeito dele de se safar das coisas.
Falava sobre tudo o que todo mundo já viveu e não da valor. Sobre como era cruel uma pessoa de 20 e poucos anos acabar jogado e esfaqueado numa esquina da cidade, como indigente.
Mas de uma coisa ela tinha total certeza.
A vida, ela seria totalmente diferente.
Nada de ia, talvez, pode ser.
Sempre, agora, nunca, sim e não.
Estou ali, e aqui, e não aqui e sumi.
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