Uma pulga qualquer, que pula de casa em casa, de cachorro em cachorro e já viu mais coisas do que eu. Mas... O que esta pulga já viu?
A pulga estava cansada de ver brigas, pessoas se desgostando e crianças chorando, e continuava a pular. Já viu mulher espancada e gente violentada, viu menino agredido e menina batendo em gato, mas a pulga sabia que encontraria beleza. Tornou a pular.
Depois de tanto tempo pulando, a pulga desistiu. Desistiu de ver pessoas lutando por direitos sem serem atendidas, desistiu de ver protestos que não são levados a sério, desistiu de ver sofrimento.
E decidiu virar amor.
A Pulga cantava sonetos e enviava cartões. A Pulga levava paz onde quer que passasse, mais pessoas vendo o nascer do sol, menos brigas e mais compreensão, mediação.
A Pulga gostava de levar chocolates, pedir pizza, ver filmes, trazer memórias da infância.
Ela gostava de consertar corações.
A Pulga mudou, decidiu não ficar mais quieta e ser alguém, mas ela sabe que sem colaboração, não pode mudar nada.
A pulga é um ser vivo qualquer, e pode ser qualquer um que queira.
Eu, você, seu cachorro, a moça da limpeza, o guarda...
Só basta ser.
Assombro
Quando tudo fica escuro, a luz volta em algum momento, é certo.
Vejamos em um apagão. A energia acaba e você fica sem luz, sem água gelada, sem banho quente, internet... Sem as coisas que você estima serem essenciais pra você. De primeira é até divertido, o 3G ainda está pegando, da pra enviar algumas mensagens, jogar, usar a lanterna pra procurar as velas. Passa um tempo e nada de voltar, nisso, a sua bateria já está no final e bate o desespero: Como eu vou carregar o celular. Depois você sente sede, e a água está natural... Sente fome, e tem que procurar - no escuro - alimentos que não necessitem de aquecimento.
O que te resta é tentar dormir e rezar pra a luz voltar na madrugada.
Chega a insônia, o calor da noite e a vontade de tomar banho, mas o banho tem que ser totalmente gelado. E no escuro, tudo fica mais perigoso, a probabilidade de escorregar no sabonete é maior. Resumindo: Você vai para cama com sono, calor e fome. E se debate na cama até dormir. No dia seguinte, o sol aparece. A energia volta um pouco depois, e tudo volta ao normal.
Eu acabei de descrever com detalhes, o que acontece nos períodos mais sombrios de uma forma amenizada, a única diferença é que ninguém sabe quando a luz vai voltar.
Vejamos em um apagão. A energia acaba e você fica sem luz, sem água gelada, sem banho quente, internet... Sem as coisas que você estima serem essenciais pra você. De primeira é até divertido, o 3G ainda está pegando, da pra enviar algumas mensagens, jogar, usar a lanterna pra procurar as velas. Passa um tempo e nada de voltar, nisso, a sua bateria já está no final e bate o desespero: Como eu vou carregar o celular. Depois você sente sede, e a água está natural... Sente fome, e tem que procurar - no escuro - alimentos que não necessitem de aquecimento.
O que te resta é tentar dormir e rezar pra a luz voltar na madrugada.
Chega a insônia, o calor da noite e a vontade de tomar banho, mas o banho tem que ser totalmente gelado. E no escuro, tudo fica mais perigoso, a probabilidade de escorregar no sabonete é maior. Resumindo: Você vai para cama com sono, calor e fome. E se debate na cama até dormir. No dia seguinte, o sol aparece. A energia volta um pouco depois, e tudo volta ao normal.
Eu acabei de descrever com detalhes, o que acontece nos períodos mais sombrios de uma forma amenizada, a única diferença é que ninguém sabe quando a luz vai voltar.
Não conto reconto, eu espalho
Vamos sair da fantasia hoje, que pra mim o assunto é sério.
O mundo é cruel, a vida é cruel.
Nesse último mês a quantidade de pessoas no meu facebook que perderam um amigo ou parente foi surreal, principalmente por todos serem muito jovens.
E isso acaba comigo, de verdade. Eu sei que é algo que ocorre todos os dias com milhões de pessoas no mundo, e que eu nunca vou mudar isso... Mas já que eu não posso mudar, por que não ser amor?
A vida é muito curta pra não ser amor. Não sei se todos que amo vão estar vivos ao final do dia de hoje, amanhã ou depois, mas sei que amo muito, e também não sei o quanto vou viver.
Vamos esquecer a ironia, as picuinhas, as pessoas que não se enxergam no espelho e querem apontar o defeito alheio.
Eu quero ser amor enquanto houver pessoas para amar. Quando não houver, eu vou inventar.
É muito triste viver sem amor.
Um salve aos novos anjinhos no céu.
Renata destrata (mais que o normal)
Para entender, leia : Renata maltrata, trata, destrata e grata
Escrito e publicado na sexta-feira 22 de fevereiro de 2013:
Nota: Antes de qualquer coisa, a operação veneno ainda não obteve sucesso.
Porque crianças são tão insuportáveis?
Minha prima de quatro anos veio passar uns dias aqui em casa (meus pais viajaram com os pais dela), e puta que pariu, já pisei em tanto lego, que se juntar cobre cajazeiras. Mas já arrumei um jeito de me livrar dela – e de outro inferno na minha vida apelidado de Karol – e deixei minha querida cunhada tomando conta da monstrinha.
Neste momento me encontro na casa de uma amiga. Implorei pra poder dormir aqui de todos os jeitos possíveis… Acabei lavando toda a louça. Que a vadia não lavava há no mínimo duas semanas, porque não é possível uma coisa daquelas.
Tudo bem, preferi passar por isso do que ter que aguentar o combo Amandinha, Karol e Paty. (Hoje não tem sexo naquela casa, meus irmãos vão me odiar, e tomara que as cunhadas também) Se bem que, dessa vez ninguém vai roubar minha comida super trancada no meu novo frigobar. Quero ver o que a Paty vai fazer sem Pringles e meu estoque de Pepsi (ela que não gaste os R$ 15 dela não, fique ai).
Na verdade, o assunto de hoje não é o quanto eu odeio minhas cunhadas – em parte, sim – mas como eu consigo ser mais espontânea do que o necessário.
Trejeitos, manias… Totalmente inconscientes, que se não tivessem me falado, eu nunca teria percebido. Acho que passo tanta vergonha quando as pessoas falam, que eu prefiro que não falem. Que saco, vão arrumar o que fazer, cuidar das manias de vocês e da falta de educação, porque olha, tá feio.
Essa galera que acha que eu nasci pra ficar parada não sabe o que é emoção. Vou colocar todo mundo pra andar de patins sem joelheira na ladeira do funil, pra ver o que é bom, e ainda passar álcool iodado depois, porque merthiolate não arde.
Mencionei que desliguei meu celular, caso Marcos e Gustavo liguem pra me despachar Amanda? Saí de casa e deixei um bilhete: Não vou voltar, beijos. Cuidem da Amanda. Agora eles devem estar brigando entre si. Amo ser a mais velha.
Estou aqui na casa da Jéssica, podendo comer todo brigadeiro que eu quiser, e só tenho uma pessoa pra dividir, não um batalhão como seria lá em casa.
A Jê mora só, isso é maravilhoso. Ás vezes o irmão dela vem pra cá, mas eu acho até bom. Ele é bom de se olhar, só digo isso… E acabo de lembrar que tenho uns projetos pra finalizar. Falta pouca coisa, mas… É chatinho do mesmo jeito.
E minha parceira de projeto tá pensando que é algum orixá no dique, porque nunca vi mais mandona. Não faz nada, e quer tudo pra ontem. Menos concorrência no mercado de trabalho, penso assim.
E no amor? Mais uma rodada de pessoas sem imaginação, que continuam olhando pra um parque e vendo só um parque. Patético.
Na próxima compro caleidoscópios e distribuo.
Escrito e publicado na sexta-feira 22 de fevereiro de 2013:
Nota: Antes de qualquer coisa, a operação veneno ainda não obteve sucesso.
Porque crianças são tão insuportáveis?
Minha prima de quatro anos veio passar uns dias aqui em casa (meus pais viajaram com os pais dela), e puta que pariu, já pisei em tanto lego, que se juntar cobre cajazeiras. Mas já arrumei um jeito de me livrar dela – e de outro inferno na minha vida apelidado de Karol – e deixei minha querida cunhada tomando conta da monstrinha.
Neste momento me encontro na casa de uma amiga. Implorei pra poder dormir aqui de todos os jeitos possíveis… Acabei lavando toda a louça. Que a vadia não lavava há no mínimo duas semanas, porque não é possível uma coisa daquelas.
Tudo bem, preferi passar por isso do que ter que aguentar o combo Amandinha, Karol e Paty. (Hoje não tem sexo naquela casa, meus irmãos vão me odiar, e tomara que as cunhadas também) Se bem que, dessa vez ninguém vai roubar minha comida super trancada no meu novo frigobar. Quero ver o que a Paty vai fazer sem Pringles e meu estoque de Pepsi (ela que não gaste os R$ 15 dela não, fique ai).
Na verdade, o assunto de hoje não é o quanto eu odeio minhas cunhadas – em parte, sim – mas como eu consigo ser mais espontânea do que o necessário.
Trejeitos, manias… Totalmente inconscientes, que se não tivessem me falado, eu nunca teria percebido. Acho que passo tanta vergonha quando as pessoas falam, que eu prefiro que não falem. Que saco, vão arrumar o que fazer, cuidar das manias de vocês e da falta de educação, porque olha, tá feio.
Essa galera que acha que eu nasci pra ficar parada não sabe o que é emoção. Vou colocar todo mundo pra andar de patins sem joelheira na ladeira do funil, pra ver o que é bom, e ainda passar álcool iodado depois, porque merthiolate não arde.
Mencionei que desliguei meu celular, caso Marcos e Gustavo liguem pra me despachar Amanda? Saí de casa e deixei um bilhete: Não vou voltar, beijos. Cuidem da Amanda. Agora eles devem estar brigando entre si. Amo ser a mais velha.
Estou aqui na casa da Jéssica, podendo comer todo brigadeiro que eu quiser, e só tenho uma pessoa pra dividir, não um batalhão como seria lá em casa.
A Jê mora só, isso é maravilhoso. Ás vezes o irmão dela vem pra cá, mas eu acho até bom. Ele é bom de se olhar, só digo isso… E acabo de lembrar que tenho uns projetos pra finalizar. Falta pouca coisa, mas… É chatinho do mesmo jeito.
E minha parceira de projeto tá pensando que é algum orixá no dique, porque nunca vi mais mandona. Não faz nada, e quer tudo pra ontem. Menos concorrência no mercado de trabalho, penso assim.
E no amor? Mais uma rodada de pessoas sem imaginação, que continuam olhando pra um parque e vendo só um parque. Patético.
Na próxima compro caleidoscópios e distribuo.
Na Madrugada, a Muda Canta
Cris? Sim, me chamam de Cris. Léo sabia que o meu nome era Clair, já havia descrito como a minha mãe era louca por Debussy. Clair Lune foi o resultado dessa paixão.
Ele apenas me apresentava como Cris, e eu, que não me importo, não corrijo. Na verdade, eu não falo... Poucas são as pessoas que já ouviram a minha voz. Entre elas: meus pais, Ana, Léo, alguns professores e a classe de literatura, porque o professor me fez ler um soneto.
Léo nasceu comigo, praticamente é meu irmão, nossas mães se conheceram na maternidade, e parece que foram amigas até eu ficar órfã. Não gosto dessa história, quero pular.
Diziam que eu tinha alguma doença, porque minha primeira palavra foi aos quatro anos, mas sempre me senti completamente normal. Segundo Léo, eu estava nervosa com alguma coisa e disse 'Não'.
Nunca liguei para palavras, e não me importo muito com o que dizem, eu sei o que elas sentem. Apenas sei.
Ana é minha irmã mais nova, ela não gosta muito de quando vou buscá-la na escola. Ouço coisas do tipo 'você é estranha' o tempo inteiro, e Ana se arrepende de dizer. Sinto pela voz e expressão que ela faz assim que diz.
Naquela noite, eu despistei Léo e os amigos inexpressivos dele, e desapareci na orla.
Eu, a areia e a maresia. Tirei o salto e caminhei até a água, que parecia estar tão fria quanto aquela noite de agosto há dois anos. E podia jurar que ela estava apenas chegando e não era apenas uma lembrança.
Os grãos de areia eram fofos e acalmavam minha pele em contato com a água, o que me fazia pressionar os dedos contra eles. Era como pisar em nuvens, se algum dia fosse possível.
E eu sei que será.
Mas não agora, e não hoje. Não quero pensar no que pode ser, no que será, quero saber do que está acontecendo agora, do que é, do que eu sou.
No momento, eu sou uma pessoa no mínimo desequilibrada por estar sozinha em uma praia às duas da manhã, mas... Quem liga?
Apenas me veio uma canção antiga, que embalava as noites da minha infância.
'Olá' Alguém falou e congelei. Não estava sozinha, e haviam escutado. Quantos eram? Não tive coragem de me virar, mas não foi preciso, logo ouvi o barulho na água, ele estava vindo. Noah, seu nome era Noah. Me pediu para continuar a canção, e fiz que não com a cabeça.
- Tudo bem - Noah riu - Venho aqui sempre, e você está roubando minha praia
Senti o tom de deboche, preferi não encarar, mas saiu um suspiro indiferente
- Olha, eu não estou bem, me desculpe qualquer coisa. O negócio da praia foi pra descontrair, mas se quiser, eu posso ir...
Ele se virou, mas puxei pelo braço.
Não queria que o garoto fosse embora por minha falta de educação, e ele ficou.
Pediu licença e pegou meu par de sapatos para colocar em cima de uma pedra, que ele acabou sentando, e ali ouvi toda sua história de vida, sem dar um pio, já que ele havia ouvido sua voz sem permissão.
- Me desculpe, qual seu nome?
Estava escuro, não dava pra desenhar na areia, tive que pensar rápido.
Apontei.
- Lua?
Fiz que não
- Luna?
Balancei a mão como quem diz 'mais ou menos'.
- Lune?
Não deixa de ser, então sorri e fiz que sim.
Ele começou a falar mais e fazer piadas de como eu era calada, mas que isso era bom. Quem ouve mais, geralmente consegue sair melhor dos problemas, o que não era o caso dele, e que na verdade, quem pouco fala, quase não tem problemas.
Pra falar a verdade, meu único problema são algumas pessoas que acham que eu tenho algum problema mental, e não respeitam meu direito de ficar calada.
Ele respeitou, e não insistiu... Apenas se guiava pelas minhas expressões corporais, e parecia entender bastante do assunto, não imagino como.
Apenas sei que antes do nascer do sol, não sei como, e contra a tudo o que eu acreditava, eu cantei.
E ele ouviu.
E o Sol nasceu.
Antes de ir, escrevi meu número na areia, seguido de uma mensagem:
Respondo sms
Apenas sei que peguei meu celular ao entrar no carro e haviam dezenas de chamadas do Léo. Enviei um sms dizendo apenas que estava bem.
E... Esperei outro sms chegar.
Chegou.
Ele apenas me apresentava como Cris, e eu, que não me importo, não corrijo. Na verdade, eu não falo... Poucas são as pessoas que já ouviram a minha voz. Entre elas: meus pais, Ana, Léo, alguns professores e a classe de literatura, porque o professor me fez ler um soneto.
Léo nasceu comigo, praticamente é meu irmão, nossas mães se conheceram na maternidade, e parece que foram amigas até eu ficar órfã. Não gosto dessa história, quero pular.
Diziam que eu tinha alguma doença, porque minha primeira palavra foi aos quatro anos, mas sempre me senti completamente normal. Segundo Léo, eu estava nervosa com alguma coisa e disse 'Não'.
Nunca liguei para palavras, e não me importo muito com o que dizem, eu sei o que elas sentem. Apenas sei.
Ana é minha irmã mais nova, ela não gosta muito de quando vou buscá-la na escola. Ouço coisas do tipo 'você é estranha' o tempo inteiro, e Ana se arrepende de dizer. Sinto pela voz e expressão que ela faz assim que diz.
Naquela noite, eu despistei Léo e os amigos inexpressivos dele, e desapareci na orla.
Eu, a areia e a maresia. Tirei o salto e caminhei até a água, que parecia estar tão fria quanto aquela noite de agosto há dois anos. E podia jurar que ela estava apenas chegando e não era apenas uma lembrança.
Os grãos de areia eram fofos e acalmavam minha pele em contato com a água, o que me fazia pressionar os dedos contra eles. Era como pisar em nuvens, se algum dia fosse possível.
E eu sei que será.
Mas não agora, e não hoje. Não quero pensar no que pode ser, no que será, quero saber do que está acontecendo agora, do que é, do que eu sou.
No momento, eu sou uma pessoa no mínimo desequilibrada por estar sozinha em uma praia às duas da manhã, mas... Quem liga?
Apenas me veio uma canção antiga, que embalava as noites da minha infância.
'Olá' Alguém falou e congelei. Não estava sozinha, e haviam escutado. Quantos eram? Não tive coragem de me virar, mas não foi preciso, logo ouvi o barulho na água, ele estava vindo. Noah, seu nome era Noah. Me pediu para continuar a canção, e fiz que não com a cabeça.
- Tudo bem - Noah riu - Venho aqui sempre, e você está roubando minha praia
Senti o tom de deboche, preferi não encarar, mas saiu um suspiro indiferente
- Olha, eu não estou bem, me desculpe qualquer coisa. O negócio da praia foi pra descontrair, mas se quiser, eu posso ir...
Ele se virou, mas puxei pelo braço.
Não queria que o garoto fosse embora por minha falta de educação, e ele ficou.
Pediu licença e pegou meu par de sapatos para colocar em cima de uma pedra, que ele acabou sentando, e ali ouvi toda sua história de vida, sem dar um pio, já que ele havia ouvido sua voz sem permissão.
- Me desculpe, qual seu nome?
Estava escuro, não dava pra desenhar na areia, tive que pensar rápido.
Apontei.
- Lua?
Fiz que não
- Luna?
Balancei a mão como quem diz 'mais ou menos'.
- Lune?
Não deixa de ser, então sorri e fiz que sim.
Ele começou a falar mais e fazer piadas de como eu era calada, mas que isso era bom. Quem ouve mais, geralmente consegue sair melhor dos problemas, o que não era o caso dele, e que na verdade, quem pouco fala, quase não tem problemas.
Pra falar a verdade, meu único problema são algumas pessoas que acham que eu tenho algum problema mental, e não respeitam meu direito de ficar calada.
Ele respeitou, e não insistiu... Apenas se guiava pelas minhas expressões corporais, e parecia entender bastante do assunto, não imagino como.
Apenas sei que antes do nascer do sol, não sei como, e contra a tudo o que eu acreditava, eu cantei.
E ele ouviu.
E o Sol nasceu.
Antes de ir, escrevi meu número na areia, seguido de uma mensagem:
Respondo sms
Apenas sei que peguei meu celular ao entrar no carro e haviam dezenas de chamadas do Léo. Enviei um sms dizendo apenas que estava bem.
E... Esperei outro sms chegar.
Chegou.
Renata maltrata, trata, destrata e grata
Escrito em 20 de novembro de 2012
É questão de ser e rir. Rir. Sempre dou risada de tudo. Minha família já não me leva mais em funeral, nem em nada, porque eu estou sempre rindo. É ‘Renata cala a boca’ ‘Renata isso’ ‘Renata aquilo’ que eu fico louca, e acabo imaginando se meu nome não fosse algo tão pronunciável. Percebi que não tenho apelido. As pessoas me acham tão criativa e engraçada nas piores situações, que pensam que não tem criatividade pra um apelido. Rê é tão cafona. Terminei com dois porque não aguentava mais como soava o ‘Rê’. Prefiro Renata. Mas quero um apelido…
Os namorados que não me ganharam pela cozinha, me perderam pela criatividade. É impossível me relacionar com alguém que olhe para um parque e só veja um parque. Um parque tem tudo, tem história. Aliais… O que não tem história? O plástico do seu celular tem uma história, seu fone de ouvido deve ter mais história que você, por exemplo. Aliais, porque ele sempre quebra? É incrível. Fone é ao mesmo tempo a melhor e a pior coisa criada pela humanidade. É bom se isolar do mundo e se livrar do homem ouvindo Pablo (nosso rei, só que não) ou ‘Rala a xana no asfalto’ ou de seus irmãos enchendo o saco… Mas pense na frustração de pegar o fone e um lado não funcionar? Ou de colocar certinho no bolso (bolsa, carteira, o escambau) e ele sair com um nó de marinheiro perfeito? Não tem Steve Jobs que dê jeito, fone sempre vai ser um problema.
Voltando à história das coisas, nunca se deve julgar um livro pela capa. Claro que uma capa mal feita sempre vai vender menos que uma capa bem editada. A história de um é uma, mas a do outro pode ser igualmente interessante.
Falando em história, eu não tenho uma cunhada insuportável. Eu tenho duas. Acho que isso explica toda a minha veia otimista, porque se não fosse assim, seria uma guerra. Patrícia e Karolynny. Namoral, eu tenho que parabenizar o homem que registrou Karol (prefiro chamar assim pelo excesso de pobreza). Segundo a enjoada dois, foi o ‘homem do cartório que fez isso, era pra ser Caroline). Não sou preconceituosa, mas ela tem um sotaque horrível, e os pais dela também. Não duvido nada ele ter colocado a grafia de proposito. Afinal, a letra ‘Y’ é chique, não? É o que diz a insuportável da ‘Paty’, que até hoje (depois do orkut) usa esse apelido nas redes sociais, e se acha o máximo. O caso é que as duas chegam lá em casa e acham que são mais filhas da minha mãe do que eu.
Uma vez eu cheguei em casa às cinco da manhã, e Patrícia estava dormindo no MEU quarto, com as MINHAS coisas, e com o MEU computador e MEU ar ligado. Meu irmão estava doente, e a Madre Teresa quis dormir lá pra tomar conta dele. Custava pegar uma porra de um colchão e dormir no quarto do Marcos? Não. TINHA que ir pro meu quarto, sabendo que eu ia chegar cansada e de madrugada. Sabe o que eu ouvi? Poxa Renatinha, alguém tinha que cuidar dele, não tenho culpa se você e o Gu saem e deixam ele aqui…Primeiro que ele tem 23 anos, estava com uma febrezinha de nada, e minha mãe estava em casa. Pra que namorada tomando conta NO QUARTO DO LADO (nem pra dizer que ia fazer coisa melhor no quarto dele) se tem mãe? Pra mim foi desculpa daquela bisbilhoteira pra olhar meus históricos de conversa. Depois disso, coloquei uma senha no meu computador. Ficou perfeita: patriciaevadia. Espero que Marcos nunca descubra.
Mas ninguém supera Karol. Namora o Gustavo tem cinco anos, e já está quase morando aqui. Cada dia trás uma coisinha. Dia desses, Gustavo comprou uma cama de casal alegando que era porque eu tinha uma e ele não. Mas claro, eu sou mais velha. Me pergunto sobre os pais dessa menina. Não, sério. Ela tem 18 anos, veio de um interior com um nome impronunciável para estudar aqui, e não mora com os pais desde então. Esse então é desde os 12. Primeiro começou como uma namoradinha do colégio. Rezei pra não ter que aguentar mais, e agora esse inferno ta quase morando aqui em casa. Ela que não arrume um apartamento com ele, fique ai. E que compre o Shampoo dela. O meu é caríssimo, gasto muito com o meu cabelo, principalmente depois da tintura que… a Karolzinha inventou de imitar. Tudo que eu faço, tenho, como, sei lá, acho que se eu me atirar no trilho do metrô de São Paulo (porque aqui em Salvador isso nem é ameaça) ela se atira.
Acho que vou colocar dois vidrinhos, um com água e um com veneno. Tomo o com água dizendo que é alguma porra pra a pele, e todos os meus problemas estarão resolvidos.
É questão de ser e rir. Rir. Sempre dou risada de tudo. Minha família já não me leva mais em funeral, nem em nada, porque eu estou sempre rindo. É ‘Renata cala a boca’ ‘Renata isso’ ‘Renata aquilo’ que eu fico louca, e acabo imaginando se meu nome não fosse algo tão pronunciável. Percebi que não tenho apelido. As pessoas me acham tão criativa e engraçada nas piores situações, que pensam que não tem criatividade pra um apelido. Rê é tão cafona. Terminei com dois porque não aguentava mais como soava o ‘Rê’. Prefiro Renata. Mas quero um apelido…
Os namorados que não me ganharam pela cozinha, me perderam pela criatividade. É impossível me relacionar com alguém que olhe para um parque e só veja um parque. Um parque tem tudo, tem história. Aliais… O que não tem história? O plástico do seu celular tem uma história, seu fone de ouvido deve ter mais história que você, por exemplo. Aliais, porque ele sempre quebra? É incrível. Fone é ao mesmo tempo a melhor e a pior coisa criada pela humanidade. É bom se isolar do mundo e se livrar do homem ouvindo Pablo (nosso rei, só que não) ou ‘Rala a xana no asfalto’ ou de seus irmãos enchendo o saco… Mas pense na frustração de pegar o fone e um lado não funcionar? Ou de colocar certinho no bolso (bolsa, carteira, o escambau) e ele sair com um nó de marinheiro perfeito? Não tem Steve Jobs que dê jeito, fone sempre vai ser um problema.
Voltando à história das coisas, nunca se deve julgar um livro pela capa. Claro que uma capa mal feita sempre vai vender menos que uma capa bem editada. A história de um é uma, mas a do outro pode ser igualmente interessante.
Falando em história, eu não tenho uma cunhada insuportável. Eu tenho duas. Acho que isso explica toda a minha veia otimista, porque se não fosse assim, seria uma guerra. Patrícia e Karolynny. Namoral, eu tenho que parabenizar o homem que registrou Karol (prefiro chamar assim pelo excesso de pobreza). Segundo a enjoada dois, foi o ‘homem do cartório que fez isso, era pra ser Caroline). Não sou preconceituosa, mas ela tem um sotaque horrível, e os pais dela também. Não duvido nada ele ter colocado a grafia de proposito. Afinal, a letra ‘Y’ é chique, não? É o que diz a insuportável da ‘Paty’, que até hoje (depois do orkut) usa esse apelido nas redes sociais, e se acha o máximo. O caso é que as duas chegam lá em casa e acham que são mais filhas da minha mãe do que eu.
Uma vez eu cheguei em casa às cinco da manhã, e Patrícia estava dormindo no MEU quarto, com as MINHAS coisas, e com o MEU computador e MEU ar ligado. Meu irmão estava doente, e a Madre Teresa quis dormir lá pra tomar conta dele. Custava pegar uma porra de um colchão e dormir no quarto do Marcos? Não. TINHA que ir pro meu quarto, sabendo que eu ia chegar cansada e de madrugada. Sabe o que eu ouvi? Poxa Renatinha, alguém tinha que cuidar dele, não tenho culpa se você e o Gu saem e deixam ele aqui…Primeiro que ele tem 23 anos, estava com uma febrezinha de nada, e minha mãe estava em casa. Pra que namorada tomando conta NO QUARTO DO LADO (nem pra dizer que ia fazer coisa melhor no quarto dele) se tem mãe? Pra mim foi desculpa daquela bisbilhoteira pra olhar meus históricos de conversa. Depois disso, coloquei uma senha no meu computador. Ficou perfeita: patriciaevadia. Espero que Marcos nunca descubra.
Mas ninguém supera Karol. Namora o Gustavo tem cinco anos, e já está quase morando aqui. Cada dia trás uma coisinha. Dia desses, Gustavo comprou uma cama de casal alegando que era porque eu tinha uma e ele não. Mas claro, eu sou mais velha. Me pergunto sobre os pais dessa menina. Não, sério. Ela tem 18 anos, veio de um interior com um nome impronunciável para estudar aqui, e não mora com os pais desde então. Esse então é desde os 12. Primeiro começou como uma namoradinha do colégio. Rezei pra não ter que aguentar mais, e agora esse inferno ta quase morando aqui em casa. Ela que não arrume um apartamento com ele, fique ai. E que compre o Shampoo dela. O meu é caríssimo, gasto muito com o meu cabelo, principalmente depois da tintura que… a Karolzinha inventou de imitar. Tudo que eu faço, tenho, como, sei lá, acho que se eu me atirar no trilho do metrô de São Paulo (porque aqui em Salvador isso nem é ameaça) ela se atira.
Acho que vou colocar dois vidrinhos, um com água e um com veneno. Tomo o com água dizendo que é alguma porra pra a pele, e todos os meus problemas estarão resolvidos.
O Catador de Canções
Era uma vez um violão.
Entre cordas e vozes, dedilhadas e letras, se viam e ouviam os melhores - e piores - mas principalmente melhores poemas que já ouviram. Podiam ter de três frases até uma letra, ou apenas um improviso. Ele pertencia a alguém.
Na verdade, me contaram que era 'algo'... Como um monstro, demônio, ou coisa parecida. Honestamente, não acredito que um monstro tenha tamanha sensibilidade.
Ele catava canções.
Isso, canções. Não sonhos, não pensamentos.
Todas se encontravam em um caderno enorme e empoeirado, que de principio não parecia ter fim. Ao contrário do que muitos pensam, Hey Jude e outros sucessos não estão registradas ali, mas sim, aquela música que um Zé ninguém escreveu para a primeira namorada, a canção que a garotinha cantou para seu hamster que faleceu, a baladinha que alguém escreveu para o primeiro coração partido.
Como ele consegue as obras?
Vou-lhes contar. Mas primeiro, respondam a pergunta:
Já choraste com uma música?
Espero que a resposta tenha sido sim.
A resposta é... Um pó. Sim, um pó.
'Então esperamos tanto por... Um pó?'
Sim. Poeira. Junto com as trevas, vem um senhor que se preocupa com os sentimentos. Além de transformar aquela partitura nunca reproduzida novamente, ele cria novas. Sentimentos novos, personalidades, segundas-chances, perdas, sofrimentos e dores. Entende que cada alma viva, em cada momento precisa de uma identidade musical.
'E quando a alma da pessoa morre?'
Primeiro: O corpo não precisa apodrecer. As almas sujas, essas, tem suas páginas transformadas em vazio, para que almas novas possam exalar seu som.
Alguns, calmos como uma flauta doce, e outros agitados como um solo de bateria.
Mas uma característica em comum:
Todas eram tocadas pelo sábio monstro, em seu velho violão, eternizando momentos de pessoas - que nem imaginavam que significavam tanto.
Entre cordas e vozes, dedilhadas e letras, se viam e ouviam os melhores - e piores - mas principalmente melhores poemas que já ouviram. Podiam ter de três frases até uma letra, ou apenas um improviso. Ele pertencia a alguém.
Na verdade, me contaram que era 'algo'... Como um monstro, demônio, ou coisa parecida. Honestamente, não acredito que um monstro tenha tamanha sensibilidade.
Ele catava canções.
Isso, canções. Não sonhos, não pensamentos.
Todas se encontravam em um caderno enorme e empoeirado, que de principio não parecia ter fim. Ao contrário do que muitos pensam, Hey Jude e outros sucessos não estão registradas ali, mas sim, aquela música que um Zé ninguém escreveu para a primeira namorada, a canção que a garotinha cantou para seu hamster que faleceu, a baladinha que alguém escreveu para o primeiro coração partido.
Como ele consegue as obras?
Vou-lhes contar. Mas primeiro, respondam a pergunta:
Já choraste com uma música?
Espero que a resposta tenha sido sim.
A resposta é... Um pó. Sim, um pó.
'Então esperamos tanto por... Um pó?'
Sim. Poeira. Junto com as trevas, vem um senhor que se preocupa com os sentimentos. Além de transformar aquela partitura nunca reproduzida novamente, ele cria novas. Sentimentos novos, personalidades, segundas-chances, perdas, sofrimentos e dores. Entende que cada alma viva, em cada momento precisa de uma identidade musical.
'E quando a alma da pessoa morre?'
Primeiro: O corpo não precisa apodrecer. As almas sujas, essas, tem suas páginas transformadas em vazio, para que almas novas possam exalar seu som.
Alguns, calmos como uma flauta doce, e outros agitados como um solo de bateria.
Mas uma característica em comum:
Todas eram tocadas pelo sábio monstro, em seu velho violão, eternizando momentos de pessoas - que nem imaginavam que significavam tanto.
Existe tempo para compartilhar chocolate?
Escrito e Publicado em 17 de Setembro de 2011 - Repostado
Passaram alguns anos e seu cabelo já não era mais loiro, e sim, preto. Reconheci o jeito com que falava ao telefone e não gostava do que ouvia. Não acreditava no que estava acontecendo. Minha melhor amiga da adolescência estava sentada a minha frente em uma sala de espera. Levantei-me, e sentei ao seu lado, meio sem saber o que dizer, o que conversar, já que perdemos o contato desde que ela foi cursar faculdade em outro estado.
- Felícia? – Esperei desligar o telefone.
Virou o rosto com uma expressão de duvida, como se reconhecesse a fisionomia, mas não recordasse de onde. Até que seus olhos começaram a sorrir explicitamente e ela me abraçou forte. Não largou.
- Eu não acredito! – ela tinha a mesma voz. Grossa com leves afinações, causadas por excitações momentâneas. – É você mesmo, Eduardo?
- Sim – Sorri para ela. Meu celular começou a tocar, para minha total vergonha. Era a nossa musica preferida na época do colégio. Sempre foi meu toque, podia trocar de celular quantas vezes quisesse mas o toque nunca mudou. Não atendi, estava ocupado demais.
- Essa musica… Você ainda se lembra?
- Sempre me acompanhou
- Que ótimo… Se eu te confessar que também é o meu toque de celular?
- Sério? Então somos dois. Como vai a vida?
- Bem. Me formei em direito, casei, divorciei e casei de novo.
- Casou? Com quem?
- Primeiro foi com o meu namorado da 8ª serie, lembra? O Danilo. A gente fez faculdade no mesmo lugar, e resolvemos casar depois da formatura. Um desastre! Durou um ano e três meses, o suficiente pra nascer a Sophie.
- Mas você não disse que não queria ter filhos?
- Isso foi antes de casar. A Sophie mora com o Danilo em BH. Não perdi o contato com eles, sempre que posso vou visitá-la. Vai fazer quatro anos esse mês. – Abriu a bolsa e pegou uma foto de uma garotinha morena e de olhos verdes, com o rosto coberto de sardas
– Ela é muito linda. Aqui ela tinha acabado de voltar da escolinha. Enfim, filhos só dão trabalho quando nascem… Digamos que eu ainda não gosto da parte das fraudas, e também da parte do gofo.
- Realmente não é a sua cara. E seu atual marido?
- Renan. Conheci quando me mudei para São Paulo. Estamos casados a dois anos. Eu voltei aqui para a terrinha e ele não veio comigo. Vim ver minha família no natal. Ele quis passar o natal lá em São Paulo, com a dele. Somos muito liberais quanto a isso. Queria que a Sophie viesse passar o natal, mas parece que ela só vai passar comigo o ano novo. E você?
- Sou Engenheiro, formei no Rio. Pensei em ir atrás de você em BH, mas não passei na federal de lá. Te mandei milhões de e-mails, mensagens, tentei mandar cartas, mas sua mãe não me passou seu endereço. Tentei te achar no Facebook e não consegui, você não entrava mais no msn. Parecia que estava fugindo de mim.
Felícia nada disse. Ficou boquiaberta. Não sei se disse o que era para ser dito, mas disse que senti falta dela. Desisti de procurá-la após alguns anos. Não via Felícia faziam 12 anos. Desde a formatura do colégio. Nenhum telefonema, nada.
- E a Chiara? Lembro que namorava com ela
- Terminou comigo e fugiu com o Frederico.
- Sério? O Frederico? Acho que soube de algo assim pela Tamara, mas não sabia que foi a Chiara. Você se casou?
- Sim, mas fiquei viúvo.
- Meus pêsames.
- Foi com a Graciella. Acidente de carro. Ela morreu na hora, eu tive ferimentos leves. Fazem três anos.
- Teve algum filho?
- Ela estava grávida. – Senti meu estômago revirar ao revelar essa parte da minha vida. Como se a Graci estivesse me induzindo a contar com ela.
- Felícia Matarazzo – A recepcionista chamou- Veio ao médico aqui?
- Sim. Só rotina mesmo, aproveitei. – Ela puxou um cartão da bolsa e me entregou – Apenas para não ter desculpas, e me ligar quando puder. Quando posso te ver?
- Quando quiser – Peguei o cartão – Te ligo sim. E vamos fazer brigadeiro.
- Sério? Você aprendeu a fazer? Queimava tudo, quase incendiou minha casa.
- Qualquer coisa a gente compartilha um chocolate em barra, você tem tempo?
-Quem não tem tempo para chocolate? – Sorriu dando um beijo em minha bochecha.
E ela entrou no consultório.
Passaram alguns anos e seu cabelo já não era mais loiro, e sim, preto. Reconheci o jeito com que falava ao telefone e não gostava do que ouvia. Não acreditava no que estava acontecendo. Minha melhor amiga da adolescência estava sentada a minha frente em uma sala de espera. Levantei-me, e sentei ao seu lado, meio sem saber o que dizer, o que conversar, já que perdemos o contato desde que ela foi cursar faculdade em outro estado.
- Felícia? – Esperei desligar o telefone.
Virou o rosto com uma expressão de duvida, como se reconhecesse a fisionomia, mas não recordasse de onde. Até que seus olhos começaram a sorrir explicitamente e ela me abraçou forte. Não largou.
- Eu não acredito! – ela tinha a mesma voz. Grossa com leves afinações, causadas por excitações momentâneas. – É você mesmo, Eduardo?
- Sim – Sorri para ela. Meu celular começou a tocar, para minha total vergonha. Era a nossa musica preferida na época do colégio. Sempre foi meu toque, podia trocar de celular quantas vezes quisesse mas o toque nunca mudou. Não atendi, estava ocupado demais.
- Essa musica… Você ainda se lembra?
- Sempre me acompanhou
- Que ótimo… Se eu te confessar que também é o meu toque de celular?
- Sério? Então somos dois. Como vai a vida?
- Bem. Me formei em direito, casei, divorciei e casei de novo.
- Casou? Com quem?
- Primeiro foi com o meu namorado da 8ª serie, lembra? O Danilo. A gente fez faculdade no mesmo lugar, e resolvemos casar depois da formatura. Um desastre! Durou um ano e três meses, o suficiente pra nascer a Sophie.
- Mas você não disse que não queria ter filhos?
- Isso foi antes de casar. A Sophie mora com o Danilo em BH. Não perdi o contato com eles, sempre que posso vou visitá-la. Vai fazer quatro anos esse mês. – Abriu a bolsa e pegou uma foto de uma garotinha morena e de olhos verdes, com o rosto coberto de sardas
– Ela é muito linda. Aqui ela tinha acabado de voltar da escolinha. Enfim, filhos só dão trabalho quando nascem… Digamos que eu ainda não gosto da parte das fraudas, e também da parte do gofo.
- Realmente não é a sua cara. E seu atual marido?
- Renan. Conheci quando me mudei para São Paulo. Estamos casados a dois anos. Eu voltei aqui para a terrinha e ele não veio comigo. Vim ver minha família no natal. Ele quis passar o natal lá em São Paulo, com a dele. Somos muito liberais quanto a isso. Queria que a Sophie viesse passar o natal, mas parece que ela só vai passar comigo o ano novo. E você?
- Sou Engenheiro, formei no Rio. Pensei em ir atrás de você em BH, mas não passei na federal de lá. Te mandei milhões de e-mails, mensagens, tentei mandar cartas, mas sua mãe não me passou seu endereço. Tentei te achar no Facebook e não consegui, você não entrava mais no msn. Parecia que estava fugindo de mim.
Felícia nada disse. Ficou boquiaberta. Não sei se disse o que era para ser dito, mas disse que senti falta dela. Desisti de procurá-la após alguns anos. Não via Felícia faziam 12 anos. Desde a formatura do colégio. Nenhum telefonema, nada.
- E a Chiara? Lembro que namorava com ela
- Terminou comigo e fugiu com o Frederico.
- Sério? O Frederico? Acho que soube de algo assim pela Tamara, mas não sabia que foi a Chiara. Você se casou?
- Sim, mas fiquei viúvo.
- Meus pêsames.
- Foi com a Graciella. Acidente de carro. Ela morreu na hora, eu tive ferimentos leves. Fazem três anos.
- Teve algum filho?
- Ela estava grávida. – Senti meu estômago revirar ao revelar essa parte da minha vida. Como se a Graci estivesse me induzindo a contar com ela.
- Felícia Matarazzo – A recepcionista chamou- Veio ao médico aqui?
- Sim. Só rotina mesmo, aproveitei. – Ela puxou um cartão da bolsa e me entregou – Apenas para não ter desculpas, e me ligar quando puder. Quando posso te ver?
- Quando quiser – Peguei o cartão – Te ligo sim. E vamos fazer brigadeiro.
- Sério? Você aprendeu a fazer? Queimava tudo, quase incendiou minha casa.
- Qualquer coisa a gente compartilha um chocolate em barra, você tem tempo?
-Quem não tem tempo para chocolate? – Sorriu dando um beijo em minha bochecha.
E ela entrou no consultório.
You (I) can’t make it feel right
Escrito em 29 de novembro de 2011 - Repostado
Looking at you makes it harder
But I know that you’ll find another
But I know that you’ll find another
Sexta-feira, 18 de novembro.
Eu não podia conter minha excitação. Dois anos, vinte e quatro meses, 731 dias (ano bissexto), 17544 horas. Me aproximei de Roxanne e ela não elogiou meu cabelo platinado, como sempre fez. Na verdade, ela não me enxergou. Eu consegui voltar daquele lugar, e não ganhei um oi, um olhar, um nada. Como assim ela não me notou? Vesti o vestido que ela adora e trouxe as flores.
Me virei para apanhar o buquê que estava em cima da mesa.
Que porra é essa? Onde estão as rosas? Cadê Roxanne? Meu vestido?
Só enxergava a sala branca. A maldita sala branca que me aprisiona há 2 anos, com meus arranhões na parede. Minha blusa amarela suja de groselha e aquela mesa, com dois lugares e um esperando por ele.
Ele. Aquele de quem tive nojo durante todo esse tempo, que me tocava de modo sujo, aquele que me tirou todo o bom sentimento do coração, aquele que me ensinou a ser má e fria. E a tirar vida de pessoas.
Essa era a lei. Para sobreviver, trabalhava como assassina. E o que eu mais queria era ser a assassina dele.
Meu cabelo que antes era de um loiro platinado perfeito e vivo, agora parecia um branco cinzento. O anagrama tatuado na esquerda da minha cintura estava esticado pelo osso. Antes havia carne ali. Minhas unhas estavam amarelas e grandes. Eu não era mais Renata. Eu era a matadora. Que ironia. Matar para não morrer. Cogitei suicídio. Cogitaram levar minha família.
Porque Rox estava lá? Porque ela sumiu? Como eu consegui sair?
O que é isso na minha blusa? Ferrugem? Cheirava como tal, mas era molhado. E esse espelho surgiu de onde? Não me lembro de ter deitado.
Meus dedos. Merda, meus dedos. Não consigo mexer. Meus olhos não estão assim, esbugalhados. eles não são assim. E quem é essa chorando? Rox? Ela voltou? Meu vestido agora está lá. Quem são essas pessoas? Eu não sei de absolutamente nada, quero chorar. Merda. O que ele me ensinou sobre chorar?
Só chora quem é idiota e fraco. Você quer ser uma fraca?
Não me lembro mais do rosto da minha mãe, do meu pai e do meu irmão. Só lembro da Rox. Mas… ela era loira ou ruiva? E o que é aquela flor no meu cabelo?
Eu não lembro o que é felicidade, eu não lembro o que é vida.
Eu só me lembro de como as pessoas são ruins. Do sangue, das vidas que eu tirei, e do rosto da primeira pessoa que eu matei.
Eu.
Ali e Aqui
Existem aquelas noites onde qualquer coisa vira motivo pra sumir.
As dele, eram as sextas-feiras.
As dele, eram as sextas-feiras.
Toda manhãzinha de sexta ele acordava pensando 'O que pode dar errado? Hoje nada vai acontecer'. Terrível engano. Sempre acabava enervado em um beco qualquer, segurando uma garrafa de Whisky pela metade, vestindo sua roupa social, e o terno jogado pelo ombro.
Não carregava o celular com ele. Ao voltar para casa, sempre havia no mínimo três ligações perdidas.
Mãe, namorada e irmã.
Mas naquele sábado a tarde, ele não retornou as ligações.
Nunca mais voltou para casa.
Estava morto.
'Morto? A história é sobre um morto?' Sim. Ainda há tempo de fechar a janela.
Aqui jaz ele.
Enterrado envolto em seu terno de linho de estimação, com um Lp dos Beatles em suas mãos, e uma das alianças que havia comprado na pretensão de pedir a namorada em casamento. A outra estava nas mãos da morena que não parava de soluçar.
Não havia uma pessoa feliz com aquela perda, o rapaz morto era querido e boa gente. Ao longo dos anos, existiam pessoas que tentaram não gostar dele, mas as próprias admitiam: É impossível.
Uma senhora envolta em cores fúnebres se aproximou do microfone segurando uma folha de papel pautado. Como de se esperado, começou a ler. Era uma carta escrita pela irmã, que não teve coragem de velar o irmão.
A carta falava da infância, dos namorados que ele espantou e dos ex-namorados de que ele a defendeu. Dos resmungos que ele a fazia ouvir, do sorriso sincero que ele carregava e de tudo o que eles passaram. Sobre a bebida, sobre as brigas no trabalho, os sumiços que davam preocupação e que acabou em morte. Sobre ele dizer a menos de uma semana que ia ficar noivo, sobre os sete anos de namoro com a garota chata do ensino médio e como ela detestava o jeito dele de se safar das coisas.
Falava sobre tudo o que todo mundo já viveu e não da valor. Sobre como era cruel uma pessoa de 20 e poucos anos acabar jogado e esfaqueado numa esquina da cidade, como indigente.
Mas de uma coisa ela tinha total certeza.
A vida, ela seria totalmente diferente.
Nada de ia, talvez, pode ser.
Sempre, agora, nunca, sim e não.
Estou ali, e aqui, e não aqui e sumi.
Assinar:
Postagens (Atom)



