Era um bem daqueles bem bagunçados, mas feito com amor. Lá estavam suas maiores, melhores e piores lembranças já conhecidas, revividas, saboreadas, amassadas.
Uma gaveta cheia de vontades com as viagens que quer fazer e as pessoas que quer conhecer, os animais, as águas. Começava com um botão de rosa bem liso, inquebrável e com cheiro de infância que provocavam saudade de cheiro de bolo quente e doce de banana, dos joelhos ralados, das brincadeiras de pique-esconde, pega ladrão, de se esconder na garagem por horas e ninguém achar, de sumir sem querer e causar preocupação. De fazer os primos pequenos chorarem de quando não te achavam. De ficar com ciúmes do novo “bebê da família” que não era mais ela, das aulas de pintura e música, de ganhar chocolate até se entupir e não ligar pra isso, encher a cara de comidinhas gostosas, refrigerantes. Era um único botão de rosa, que ficava ao lado da caixinha de costura nunca usada.
Caixinha essa que lembrava das horas olhando álbuns engraçados de família, e ficava imaginando quando iria construir suas próprias histórias, como iria costura-las. Como uma colcha de retalhos, cada foto representava um local, uma lembrança, um cheiro e as vezes uma lágrima. Era viver tudo aquilo que não foi vivido. O tio que tinha cabelo demais e hoje não tanto, os bigodes, as roupas cafonas que eram moda, os cabelos naturais, geralmente cacheados... Até que chegam suas fotos, com os cabelos escorridos e olhos que pareciam maiores que o rosto quando criança. Fotos com birra, com balde na cabeça, tomando banho gelado, comendo, no primeiro dia de escola, fotos de quando tinha mania de levar a câmera pra escola e fotografar tudo e todos. Lembranças que estão ali, imortalizadas. Cada uma com um gosto diferente, dos mais doces até os azedos e amargos.
Até que surge um diário ali, bem escondido, e não atualizado, com nomes diversos, anagramas e besteiras dos 14 anos que a paciência não deixou levar.
Um diário da primeira viagem internacional, que tinha tickets de visitas a museus, zoológicos e mais. Lugares são totalmente preciosos, basta estar ali uma vez que para sempre vai levar os acontecimentos. Não só de viagens mas como de pessoas. Memórias de corredores do colégio, das escadas e quedas, dos amigos, dos intervalos, professores... Dos restaurantes que frequentou e do que acontecia, das praias, dos shoppings, dos filmes. De tudo que foi especial para aquelas memórias estarem ali, e de como seria bom viver tudo de novo. Dos finais de semanas que marcaram, da primeira viagem com os amigos, com o primeiro namorado, com a família. Está tudo ali.
Entre alguns sorrisos ou lágrimas, mas continua tudo ali, do mesmo jeito.
Era um cantinho comum, mas especial, e poderia ser de qualquer um. Cada um tem milhares de coisas novas para contribuir com muitos cantinhos e ser único por lá, ou compartilhar momentos únicos.
Cada cantinho vivido é único. É bonito.
Eu também tenho meu cantinho, assim como você. E se você não tiver achado seu cantinho ainda e disser que não tem um, é bobagem.
Como eu disse, todos tem. E acrescentam ao cantinho dos outros. E são perfeitos, porque são únicos e teus.
Um viva aos cantinhos mais lindos da vida.
