Meu sonho de tulipa

Eu tava aqui olhando uns girassóis na internet e o artificial que a minha mãe tem em casa, e eu não lembro de ter visto um na minha vida inteira. Posso ter visto, mas não lembro. Também não lembro de ter visto a flor que eu acho mais bonita na vida - Tulipa.

Isso me fez perceber o quão presa eu sou. Não só eu, mas muita gente nunca viu nem metade das coisas que acham bonitas.
Pessoas que nunca sentiram o cheiro do sal no mar, nunca andaram na areia e nunca brincaram de falar e soltar fumaça de frio.
Gente que nunca viu o sol nascer ou nunca teve tempo para vê-lo se pôr.
E a vida é muito curta pra não viver esses momentos.

É triste, sabe? Não fazer um castelo na areia.

Isso, castelo na areia. Aquele que alguém sempre pisava ou desmontava na sua frente. Uma vez, vi um tão perfeito que fiquei totalmente nervosa por não conseguir nem desenformar meu baldinho perfeitamente.
Era como um desses, de filme. Se eu não me engano, foi em um dos meus aniversários em Aracaju, quando eu tinha meus sete anos.
Tinha uma ponte que parecia esculpida, e eu fiquei horas tentando fazer uma igual até me desabar no choro em meio a barraca de praia. Fiz birra por horas pra ver se algum adulto me ajudava a fazer. Não ajudou.
Me calei com uma estrela-do-mar que me deram. Acho que foi o melhor presente que eu tinha ganhado, porque era uma estrela! Pra mim, naquela idade, estrelas do mar eram cadentes que haviam caído.
Eu não ligava mais pra barbies, pollys ou qualquer outra coisa. Brinquei com minha estrela por anos, e feliz! Também tive pedras, conchas anos mais tarde, que tinham alto valor emocional, e assim vai. Meus maiores apegos emocionais, na verdade, não tinham lá valor muito alto.
E sabe o que é melhor?
Perceber que são coisas como essas, flores, estrelinhas, cheiro de sal, abraços... São as melhores coisas que se podem ter.

Eu ainda vou ter uma Tulipa.

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