Ali e Aqui

Existem aquelas noites onde qualquer coisa vira motivo pra sumir.
As dele, eram as sextas-feiras.

Toda manhãzinha de sexta ele acordava pensando 'O que pode dar errado? Hoje nada vai acontecer'. Terrível engano. Sempre acabava enervado em um beco qualquer, segurando uma garrafa de Whisky pela metade, vestindo sua roupa social, e o terno jogado pelo ombro.
Não carregava o celular com ele. Ao voltar para casa, sempre havia no mínimo três ligações perdidas.
Mãe, namorada e irmã.
Mas naquele sábado a tarde, ele não retornou as ligações.
Nunca mais voltou para casa.
Estava morto.
'Morto? A história é sobre um morto?' Sim. Ainda há tempo de fechar a janela.

Aqui jaz ele.
Enterrado envolto em seu terno de linho de estimação, com um Lp dos Beatles em suas mãos, e uma das alianças que havia comprado na pretensão de pedir a namorada em casamento. A outra estava nas mãos da morena que não parava de soluçar.
Não havia uma pessoa feliz com aquela perda, o rapaz morto era querido e boa gente. Ao longo dos anos, existiam pessoas que tentaram não gostar dele, mas as próprias admitiam: É impossível.

Uma senhora envolta em cores fúnebres se aproximou do microfone segurando uma folha de papel pautado. Como de se esperado, começou a ler. Era uma carta escrita pela irmã, que não teve coragem de velar o irmão.
A carta falava da infância, dos namorados que ele espantou e dos ex-namorados de que ele a defendeu. Dos resmungos que ele a fazia ouvir, do sorriso sincero que ele carregava e de tudo o que eles passaram. Sobre a bebida, sobre as brigas no trabalho, os sumiços que davam preocupação e que acabou em morte. Sobre ele dizer a menos de uma semana que ia ficar noivo, sobre os sete anos de namoro com a garota chata do ensino médio e como ela detestava o jeito dele de se safar das coisas.
Falava sobre tudo o que todo mundo já viveu e não da valor. Sobre como era cruel uma pessoa de 20 e poucos anos acabar jogado e esfaqueado numa esquina da cidade, como indigente.
Mas de uma coisa ela tinha total certeza. 

A vida, ela seria totalmente diferente. 
Nada de ia, talvez, pode ser.

Sempre, agora, nunca, sim e não. 
Estou ali, e aqui, e não aqui e sumi.

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