
O dia amanheceu escuro, sem brilho.
Não havia ninguém no chalé, nenhuma alma... Mas... Quem ligava? Estava assim há algum tempo.
As xícaras estavam ali sobre a mesa, empoeiradas, aguardando por um chá que nunca ficou pronto.
Uma massa de biscoito coberta por papel plástico, um bule ao lado de algumas ervas.
Flores do campo secas no chão. Um buquê. Provavelmente colhido do jardim.
As pétalas estavam espalhadas por toda a sala.
A toalha parecia dançar junto com as cortinas e as flores. A janela rangia e o vento entrava como se fosse o único hospedeiro daquele espaço.
E era.
Ele remexia o par de sapatos amarelos que foram um dia estrategicamente colocados ao lado da porta, balançava as meias que ficavam logo ao lado. Ele levava tudo o que aquele lugar teve um dia: movimento.
A cama, feita pela última vez, acompanhava uma mala que nunca chegou a ser totalmente preenchida.
O local era a cena perfeita para um filme, o banheiro ainda tinha poças de água do último banho lá tomado.
Foi quando a brisa derrubou um porta-retrato.
Um casal abraçado, pareciam felizes. Agora a fotografia (presa ao porta-retrato) possuía uma rachadura causada pela queda.
O sentimento deixado por aquela casa era de perda, como se seus residentes houvessem largado tudo pela metade, tudo descosturado. Como se apenas tivessem se descoberto perdendo tudo, gerando um grande vazio. E difícil de recomeçar.
Era a meia que nunca iria ser calçada de novo, as roupas que foram ali largadas, as xícaras que anseiam o chá que nunca vai chegar, o chá que nunca será terminado, o biscoito que nunca será servido.
Uma rota de fuga.
Foi quando um papel voou.
Voou e caiu misteriosamente sobre a foto.
E nele dizia
"Estou aqui.
Alice"

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