O Catador de Canções

Era uma vez um violão.
Entre cordas e vozes, dedilhadas e letras, se viam e ouviam os melhores - e piores - mas principalmente melhores poemas que já ouviram. Podiam ter de três frases até uma letra, ou apenas um improviso. Ele pertencia a alguém.
Na verdade, me contaram que era 'algo'... Como um monstro, demônio, ou coisa parecida. Honestamente, não acredito que um monstro tenha tamanha sensibilidade.

Ele catava canções.
Isso, canções. Não sonhos, não pensamentos.
Todas se encontravam em um caderno enorme e empoeirado, que de principio não parecia ter fim. Ao contrário do que muitos pensam, Hey Jude e outros sucessos não estão registradas ali, mas sim, aquela música que um Zé ninguém escreveu para a primeira namorada, a canção que a garotinha cantou para seu hamster que faleceu, a baladinha que alguém escreveu para o primeiro coração partido.
Como ele consegue as obras?

 Vou-lhes contar. Mas primeiro, respondam a pergunta:
Já choraste com uma música?
Espero que a resposta tenha sido sim.
A resposta é... Um pó. Sim, um pó.
'Então esperamos tanto por... Um pó?'
Sim. Poeira. Junto com as trevas, vem um senhor que se preocupa com os sentimentos. Além de transformar aquela partitura nunca reproduzida novamente, ele cria novas. Sentimentos novos, personalidades, segundas-chances, perdas, sofrimentos e dores. Entende que cada alma viva, em cada momento precisa de uma identidade musical.
'E quando a alma da pessoa morre?'
Primeiro: O corpo não precisa apodrecer. As almas sujas, essas, tem suas páginas transformadas em vazio, para que almas novas possam exalar seu som.
Alguns, calmos como uma flauta doce, e outros agitados como um solo de bateria.
Mas uma característica em comum:
Todas eram tocadas pelo sábio monstro, em seu velho violão, eternizando momentos de pessoas - que nem imaginavam que significavam tanto.

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